Revoltas sem Revolução
Tradução do artigo de Adrian Wohlleben, originalmente publicado no site Ill Will [14.11.2025].
I. A era das revoltas ainda não terminou.
Aqueles que vagueiam em busca de uma ciência revolucionária do presente devem preparar-se para uma desilusão. Não existe uma bússola única com a qual navegar estes mares tempestuosos, nenhuma chave-mestra ou fórmula mágica capaz de endireitar o nosso barco e lançar-nos inequivocamente no caminho da revolução. A escuridão do nosso horizonte é mais profunda que qualquer outra que tenhamos conhecido nas nossas vidas.
Ainda assim - embora quem vive na América do Norte possa ser perdoado por pensar dessa forma -, não há ausência de movimento: quando ampliamos o alcance do nosso olhar, observando a situação global, encontramos ondas que se agitam e quebram a ritmos tão vertiginosos que se torna impossível acompanhá-las a todas, mesmo para quem se habituou a fazer desse exercício uma prática recorrente.
Só nos últimos seis meses, eclodiram tumultos e revoltas em massa na Turquia, Argentina, Sérvia, Quénia, Indonésia, Nepal, Filipinas e Peru. Antes disso: Bangladesh, Geórgia, Nigéria, Bolívia... e esta lista estará, certamente, incompleta. Em cada caso, mobilizações que atraíram dezenas de milhares (ou mais) de pessoas conduziram a confrontos crescentes com as forças da ordem em múltiplas cidades, desencadeando verdadeiras crises de segurança nacional. Ainda este mês, o presidente de Madagáscar dissolveu o governo em resposta a três dias de protestos mortais, liderados pela «Geração Z», contra os cortes no abastecimento de água e energia e contra a corrupção política, ostentando a mesma bandeira pirata de One Piece que os manifestantes na Indonésia e no Nepal.1 Enquanto lavro este artigo, uma nova revolta prepara-se para eclodir em Marrocos, onde manifestações em massa em onze cidades ameaçam transformar-se em violentos distúrbios e confrontos. A tudo isto, devem ser acrescentados ciclos anteriores que continuam em curso, como a guerra civil em Mianmar, onde os insurgentes dão continuidade aos avanços, tomando cidades inteiras controladas pela Junta.
Em suma, embora a pandemia global de COVID-19 tenha parecido, a alguns intelectuais, uma conspiração maléfica arquitetada para reprimir o ciclo de revoltas que assolou o mundo entre 2018 e 2019, como os americanos descobriram já em maio de 2020, tais receios eram, felizmente, infundados. Apesar de uma breve desaceleração, entre 2021 e 2023, o último ano e meio confirmou que a nova «era dos motins»2 (como o grupo comunista grego Blaumachen a descreveu em 2011) está longe de ter terminado.
O desafio que aqui se apresenta à reflexão é duplo: situar essas revoltas no contexto das rupturas epocais que elas atestam e identificar as suas potencialidades não desenvolvidas, traçando as fissuras entre as práticas que as habitam.
II. A ordem mundial neoliberal está a chegar ao fim, sem que nenhum novo regime tenha vindo ocupar o seu lugar. Todas as partes foram empurradas para um plano estratégico.
Apesar de presenciarmos um enorme caos sob o céu, dificilmente se poderá dizer que a situação é excelente.
Vivemos num interregno. Durante quase duas décadas, a ordem neoliberal global do capitalismo financeiro, que se instalou na década de 1980, e, mais tarde, se espalhou pelo mundo na década de 1990, tem sido afetada por crises persistentes e crescentes de rentabilidade. Os partidos políticos, incapazes de garantir o crescimento económico por via do mercado, vêem-se confrontados com uma escolha: a de serem derrotados, no próximo ciclo eleitoral, por adversários que prometem crescimento, mas que também não o conseguem concretizar; ou a de procurarem garantir lucros, recorrendo a estratégias extraeconómicas baseadas na guerra, pilhagem, conquista e despossessão. Por esta razão, desde a crise financeira de 2008, o ciclo de acumulação já não pode funcionar apenas através das suas próprias regras e sistemas imanentes, hierarquias e valores, pois os seus «impasses e bloqueios... exigem a intervenção de [um] ciclo estratégico, que funciona com base nas relações de força e na relação não económica entre amigos e inimigos”.3
Por exemplo, qual é o plano de Trump para «reduzir os riscos da economia dos EUA» pela via da reindustrialização? Através de uma combinação de ameaças económicas e militares (tarifas para alguns, invasões para outros), o objetivo passa por coagir os países aliados a investirem em fábricas sediadas nos Estados Unidos. Como explicou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, numa entrevista dada à Fox News em agosto4, em troca da «redução de algumas tarifas para aliados estrangeiros», países como o Japão, a Coreia do Sul, os Emirados Árabes Unidos e outras nações europeias, «investirão nas empresas e indústrias que nós indicarmos — em grande parte, a critério do presidente. Esses outros países estão, no essencial, a fornecer-nos um fundo soberano». Como resumiu o correspondente da Fox News, «o presidente adora novas fábricas [...] E se alguns desses países tiverem que pagar pelo privilégio de nos ajudar — tudo bem». Em outras palavras, o crescimento e a estabilidade norte-americanos serão adquiridos diretamente por meio da intimidação económica e da chantagem militar.
III. As revoltas contemporâneas e o neo-autoritarismo são ambos sintomas do colapso do capitalismo neoliberal.
É neste contexto que devemos situar não só a onda de revoltas globais iniciada pelo movimento das praças e pela Primavera Árabe em 2010-2012, e que continua a ganhar força, mas também a reação neo-autoritária que se seguiu - de Trump e Bolsonaro a Duterte, Orbán e Salvini.5 Embora as revoltas sejam impulsionadas, predominantemente, por jovens e trabalhadores pobres, indignados com a especulação neo-extrativista de preços, assim como pela acumulação de oportunidades pelas elites ditas «corruptas», acabando por deixar muitos da Geração Z sem outro caminho que não a emigração, os atuais líderes neo-populistas tendem a obter o apoio de uma pequena-burguesia em declínio social, ansiosa com a contração do crescimento económico e com um retorno cada vez menor sobre privilégios sociais de longa data.
À medida que a crise de crescimento se agudiza, o ciclo estratégico das relações de força necessárias à manutenção do mercado começa gradualmente a fragmentar-se, acelerando a dissolução das mediações para todas as partes, acima e abaixo: os défices comerciais são resolvidos por intimidação, guerra e saque, por parte daqueles que estão acima; enquanto que, por parte dos que estão abaixo, mesmo as tensões socioeconómicas mais incipientes desaguam agora diretamente em revoltas e agitações em massa. Estas duas dinâmicas avançam em sintonia uma com a outra. Não há um mês que passe sem que a extrema-direita obtenha novas vitórias eleitorais, sem que proclame, em voz alta, políticas neo-genocidas num novo país; enquanto isso, a cada semana, uma nova onda de agitação em massa irrompe, incendiando esquadras e edifícios parlamentares, bloqueando ruas e autoestradas, ocupando praças, saqueando palácios e lojas, forçando os governantes a fugir das suas casas e recusando-se a dispersar até ser derrotada pela imposição da força ou, então, até conseguir depor um chefe de Estado.
IV. O ressurgimento do plano estratégico, longe de constituir uma ruptura com as instituições liberais, procede através delas.
Neste ponto, é preciso evitar duas confusões. Primeiro, que o momento atual constitui uma rejeição total das ordens jurídicas e políticas liberal-democráticas que o precederam. Muitos liberais têm procurado apresentar as políticas internas da administração Trump como uma subversão das normas e políticas democráticas, que devem, portanto, ser defendidas. Na verdade, o contrário é verdadeiro. O que distingue os «novos fascismos» dos do passado não é o seu surgimento no quadro da democracia liberal, o que já era verdade para os seus antecessores do século XX. Em vez disso (como argumentaram recentemente camaradas no Chile), a diferença reside na forma como os Estados liberais contemporâneos «conseguiram aperfeiçoar as políticas fascistas e permitir a sua implementação mesmo no contexto de um enquadramento democrático, ao ponto de terem conseguido construir uma indústria em torno do crime e da insegurança como justificações para o estabelecimento dessas políticas».6 Qualquer reconhecimento genuíno desse facto, exigiria que as críticas às tendências fascistas da administração Trump fossem acompanhadas por uma crítica profunda à democracia; em vez disso, a esquerda progressista persiste na sua crença equivocada na oposição total entre democracia e fascismo. Ao mesmo tempo, porém, a dependência dos fascismos latentes em relação às estruturas jurídicas democráticas pré-existentes não deve levar-nos a acreditar na possibilidade de um retorno à democracia liberal. Os apoiantes de Zohran Mandami, que acreditam ter concretizado uma inversão de marcha, estão apenas a comprometer-se com o que lhes convém. Na verdade, a dependência transitória do fascismo em relação à democracia liberal serve apenas como pré-requisito necessário para refletir sobre as exigências do que está por vir.
V. A única certeza partilhada por todos diz respeito à necessidade de um salto.
O facto de habitarmos um interregno, entre uma ordem moribunda e outra ainda por estabilizar, significa que a única certeza partilhada por todas as partes em conflito é a de que nos encontramos a meio de uma ruptura, isto é, que as contradições do nosso presente não podem ser resolvidas com recurso aos instrumentos e procedimentos institucionais que nos trouxeram até aqui, mesmo que eles teimem, de alguma forma, em persistir.
O que é necessário é um «salto para fora da situação».7 A necessidade desse salto é sentida por toda a parte, umas vezes de forma incipiente, outras de forma consciente. Esse é o salto que está a ser preparado e iniciado, caoticamente, à nossa volta, e que explica a audácia surpreendente que irrompe de todos os cantos da sociedade, desde os atentados dos gamers ao cinismo brutal do genocídio israelita em Gaza, passando pelos jovens e classes mais desfavorecidas do Nepal que, em vingança pelos 21 manifestantes mortos pelo seu governo a 8 de setembro, incendiaram num único dia o Supremo Tribunal, o parlamento, a casa do primeiro-ministro, a casa do presidente, bem como dezenas de esquadras policiais, supermercados e uma sede da comunicação social, derrubando o governo “em menos de 35 horas”.8 É esse salto, cujos prenúncios podem ser sentidos por toda a parte, que deverá ser pensado, organizado e estrategicamente orientado rumo a uma ruptura irreversível com o domínio da economia.
VI. As revoltas contemporâneas produziram, na melhor das hipóteses, uma consciência do capital, mas não da sua superação.
Num contexto no qual as reformas constitucionais apenas podem ser conquistadas através da revolta, o problema da sua relação com a revolução deve ser repensado.
As revoltas estão em todo o lado, mas, com a possível exceção da guerra civil em Mianmar (ainda indeterminada), a grande maioria — assoberbada pelo repentino êxito da suas vitórias sobre as forças da ordem — acaba por exigir pouco mais do que um retorno negociado ao status quo. Esse padrão já se encontrava estava presente, de forma notável, na revolta de 2022, no Sri Lanka:
As lutas são frequentemente derrotadas não pelo Estado, mas pelo choque da sua própria vitória. Uma vez produzido um certo momentum, os movimentos tendem a alcançar os seus objetivos muito mais rapidamente do que qualquer um poderia esperar. A queda do regime de Rajapaksa aconteceu tão rapidamente que ninguém considerou seriamente o que viria a seguir. A janela que se abriu, viu-se, de imediato, fechada. O ar sufocante da normalidade voltou a preencher a sala.9
Uma limitação fundamental das revoltas contemporâneas reside no próprio enquadramento da luta, que tende a interpretar a degradação das condições de subsistência como um sintoma de corrupção, austeridade e nepotismo.10 Este enquadramento, que não desafia o capitalismo em si, mas apenas a sua atual (má) gestão, redunda, inevitavelmente numa reorganização do baralho:
As críticas à corrupção distorcem a real capacidade de ação que o Estado possui no contexto das crises económicas e sociais, pois presumem que o Estado poderia encontrar uma saída para a crise atual, que poderia optar por evitar a implementação de medidas de austeridade, se assim o entendesse. [...] Após a queda do regime, as pessoas deparam-se com o facto de a lógica estrutural da sociedade capitalista se manter intacta. Os governos que chegam ao poder, após a revolução, vêem-se frequentemente a implementar medidas de austeridade semelhantes às que inicialmente desencadearam os protestos.11
Por um lado, seria de esperar que estas falhas contribuíssem para a emergência de uma crítica mais sistemática do capitalismo, um desenvolvimento da “consciência de classe”, à medida que a “unidade essencial de interesses da classe dominante” se tornasse evidente para qualquer pessoa atenta. No entanto, como observa Prasad,
…talvez seja mais adequado pensar nisto como o desenvolvimento de uma consciência do capital. Para que a revolta tivesse ido mais longe, teria de se ter confrontado com a incerteza de como o país se poderia alimentar e viver, enquanto a sua relação com o mercado global se mantivesse interrompida. Afinal, é apenas através e dentro das relações da sociedade capitalista que os proletários se conseguem reproduzir.
Por outras palavras, se uma revolta não consegue confrontar o problema da ruptura revolucionária enquanto a ordem está suspensa, então a lição interiorizada corre o risco de ser a da lei férrea da economia: os participantes tomam consciência do capital enquanto restrição momentânea à vida, mas permanecem incapazes de imaginar a sua superação.12
VII. Embora as revoltas tenham gerado formas alternativas de auto-organização e autonomia, através das quais poderíamos organizar uma ruptura revolucionária, continuamos sem as compreender como tal.
Na década de 1950, Günther Anders, o filósofo alemão da tecnologia, identificou um fenómeno que apelidou de “desnível prometeico”, emergente nas sociedades industriais, que veio inverter a relação clássica entre imaginação e ação. Enquanto os utópicos se baseavam na ideia de que a nossa imaginação era maior do que aquilo que, de facto, existia, projetando-se para além da realidade, Anders defende que o inverso ocorre nos nossos dias: com a invenção da bomba nuclear, surgiu um desnível prometeico, em que os atos factuais excedem agora a capacidade que os seus agentes têm de os imaginar, pensar e sentir. Já não somos capazes de compreender, muito menos de assumir a responsabilidade pelo que estamos a fazer.13 Tornámo-nos “utópicos invertidos”, incapazes de contemplar a escala ou as repercussões das nossas próprias práticas. Somos menores do que os nossos próprios atos, que agora escondem algo insondável nas suas entranhas. A imaginação não só não consegue ir além do presente, como fica aquém da realidade.14
Um fenómeno análogo pode ocorrer nas lutas políticas. Mesmo quando ambicionam fins reformistas, os participantes alcançam por vezes avanços cuja verdadeira radicalidade permanece subestimada no momento, sobretudo quando não pode ser integrada nos conceitos e categorias herdados e adoptados pela luta. Os insurgentes são, portanto, incapazes de elaborar todas as implicações daquilo que se encontram a realizar; muitas vezes, nem se irão aperceber quando ciclos futuros de lutas acabarem por absorver os seus impulsos, conduzindo-os numa nova direção. É neste fosso, erigido entre prática e reflexão, meios e fins, entre os impulsos de um ciclo e aqueles que se lhe seguem, que a teoria pode desempenhar um papel auxiliar, revelando o excesso oculto nas dobras da história, a sua Entwicklungsfähigkeit.15
O movimento dos Gilets Jaunes (“Coletes Amarelos”) foi, neste aspeto, exemplar. Entre as suas muitas características criativas, destacam-se dois avanços. Em primeiro lugar, embora os factores de catalisação remontem a pressões sociais eminentemente familiares, como o aumento do custo de vida, a diminuição da mobilidade social, os cortes nos serviços públicos, etc., a organização da revolta contornou as categorias tradicionais de identificação política e identidade social, em detrimento de um gesto simples e replicável de auto-inclusão: para participar, bastava vestir o colete e começar a fazer alguma coisa. Ao fazê-lo, o movimento ultrapassou o problema trotskista da “convergência” entre movimentos sociais forjados na separação (estudantes, trabalhadores, migrantes, etc.). Embora toda a luta política exija algum método de formalização para demarcar a pertença, o uso de um objeto quotidiano, como um colete ou um guarda-chuva, garantiu que a força de combate fosse definida, antes de mais, pelas iniciativas contagiosas que disseminava, e não por referência a qualquer grupo social específico, autorizado a representá-la. Isto permitiu aos Gilets Jaunes contornar com sucesso um mecanismo central de governação, que se aproveita do nosso apego às nossas próprias identidades sociais para conter os antagonismos dentro das fronteiras dos canais institucionais (políticas universitárias, disputas no local de trabalho, etc.). Dos combatentes da linha da frente, em Hong Kong, aos “youthquakes” de hoje, reunidos sob o símbolo impessoal de uma bandeira pirata de manga16, as revoltas irrompem como contágios virais ou memes com força, convidando a uma experimentação mais aberta e reduzindo o seu potencial de captura. No entanto, incapazes de reconhecer a força da sua própria inovação, os Gilets Jaunes recorreram ao imaginário da Revolução Francesa e ao seu significante flutuante, “le peuple” [o povo], levando muitos a confundir a sua inovação com um populismo de direita ressurgente. Sobre a imanência inapropriada do meme, reinseriram a transcendência simbólica do mito.17
Em segundo lugar, enquanto muitas revoltas se vêem atraídas pelos símbolos do poder burguês, concentrando as suas forças aos pés de instituições da classe dominante, como tribunais, parlamentos e esquadras de polícia, os Gilets Jaunes estabeleceram as bases a partir das quais organizar a luta, traçar estratégias e partilhar a vida, em estreita proximidade com o quotidiano. Como se observou na altura,
Esta proximidade com a vida quotidiana é a chave para o potencial revolucionário do movimento: quanto mais próximos os bloqueios estiverem das casas dos participantes, maior será a probabilidade de estes locais se tornarem pessoais e importantes de inúmeras outras formas. E o facto de se tratar de uma rotunda ocupada, em vez de uma floresta ou de um vale, elimina o conteúdo prefigurativo ou utópico destes movimentos. [...] Ocupar a rotunda perto do local onde se vive garante que a confiança colectiva, a inteligência táctica e a sensibilidade política partilhada, que os Gilets Jaunes cultivam de um dia para o outro, atravessem e contaminem as redes, os laços, as amizades e os laços da vida social nessas mesmas áreas.18
Sentimentos que permanecem utópicos numa praça ocupada, no centro da cidade ou num espaço como a ZAD (onde a maioria dos participantes não reside), uma vez transferidos para a rotunda, passam a fazer parte do quotidiano em vez de permanecerem à parte dele. E quando essas bases são atacadas por forças repressivas, os recursos da vida privada conseguem reabastecê-las e reconstruí-las, como vimos em Rouen, onde as cabanas improvisadas construídas na rotunda foram destruídas e reconstruídas meia dúzia de vezes.19
A inovação não foi meramente um reflexo da proximidade com a vida quotidiana; se esse fosse o caso, ocupar os centros das aldeias no interior teria sido suficiente. Ao posicionarem a sua base de operações no limiar entre a economia e a vida quotidiana — no ponto exato onde os camiões que transportavam mercadorias pelas autoestradas precisavam entrar na cidade — as rotundas posicionaram-se também para funcionar como bloqueios de triagem, conferindo vantagem logística aos insurgentes. Ao bloquearem a circulação, não no ponto de maior importância para o capital, mas no ponto onde o capital entra no espaço da vida quotidiana, politizaram a membrana entre a vida e o dinheiro em termos favoráveis para eles, e não no local ditado pelos símbolos do poder burguês, como tinha feito o movimento Occupy Wall Street. Na realidade, “o verdadeiro horizonte estratégico dos bloqueios do interior não é suspender completamente os fluxos da economia, mas produzir bases territoriais habitadas que a devolvam ao mapa da vida quotidiana, a um nível no qual possam ser apreendidos e decididos”.20 Esta combinação de uma inteligência logística posicionada no limiar da vida quotidiana, mas federada a nível nacional através de conselhos e assembleias regionais e nacionais21, ofereceu um paradigma original e potente para a auto-organização insurrecional.
Mais uma vez, porém, não é claro se os Gilets Jaunes chegaram a compreender plenamente o seu ato criativo por aquilo que ele representava. Em vez de reconhecerem que estavam a reimaginar as próprias formas e práticas pelas quais o lema “todo o poder às comunas” poderia ser adaptado aos nossos tempos, um foco restrito em garantir a demissão de Macron levou muitos a adotarem uma forma somente um pouco distinta de processualismo parlamentar, nomeadamente através da Iniciativa do Referendo Cidadão (RIC).22
Para Jérôme Baschet, por outro lado, a construção destes “espaços libertados” — quando levada às últimas consequências — poderia ter servido como premissa básica para um ataque mais amplo à economia, que não só aprofundasse as “ligações entre os espaços libertados existentes”, mas também combinasse
…a multiplicação de espaços libertados com bloqueios generalizados. Na medida em que os espaços libertados são capazes de mobilizar os seus próprios recursos materiais e capacidades técnicas, podem servir como nódulos decisivos a partir dos quais se torna possível amplificar a dinâmica do bloqueio em momentos-chave, de várias formas. Quanto mais espaço livre tivermos, mais poderemos ampliar a nossa capacidade de realizar bloqueios. Por outro lado, quanto mais disseminados se tornarem os bloqueios, mais promoverão o aparecimento de novos espaços livres.23
É claro que o perigo seria pensar que o necessário é simplesmente uma repetição do momento dos Gilets Jaunes. Este erro, que pareceu permear a estranha bolha especulativa deste Verão, em torno da iniciativa “Bloquear tudo” de 10 de Setembro em França, deriva de uma tendência para desligar o problema das tácticas e práticas, do evento-ruptura que possibilitou a sua emergência.24 Aqueles que ambicionam conduzir a história à sua repetição, garantem a farsa.
VIII. Nos seus ímpetos práticos, a luta contra o ICE aponta para uma superação das separações que condicionaram a revolta de George Floyd, em 2020.
A capacidade ofensiva da revolta de George Floyd, em 2020, foi prejudicada por uma separação fundamental entre o seu impulso de criação de espaços e a sua inteligência logística. As ocupações que sitiaram frontalmente os corredores do poder (“motim político”) nunca conseguiram combinar forças de modo significativo com as ondas de pilhagens que invadiram centros comerciais e áreas de compras, em manobras de ataque e retirada (“motim nas montras”).25 Como resultado, a consciência logística/infraestrutural tendeu a permanecer relativamente despolitizada, uma coleção avulsa de técnicas, enquanto a consciência política permaneceu presa a edifícios evacuados com valor amplamente simbólico.26 Com a construção de centros de defesa, ou “centros”, combinada com outras práticas de mapeamento, perseguição e interrupção autónomas, a actual luta contra o ICE iniciou uma repolitização da inteligência infra-estrutural, acompanhada de uma inversão da sua orientação “cinegética” (de presa para predador). Este facto, aliado à notável tendência para reposicionar o político de volta nos espaços da vida quotidiana, aponta para uma superação dos limites de 2020 — independentemente dos seus agentes o terem tematizado como tal.
Após a invasão de cidades americanas como Washington D.C., Chicago e Portland por forças federais, o magnetismo simbólico inicialmente exercido por locais de poder, como o Centro de Detenção do ICE em Broadview, Illinois, deu lugar a um espírito difuso de auto-organização comunitária, que transcende até mesmo improváveis barreiras de classe e raça. O centro de gravidade foi deslocado do cerco implacável das fortalezas inimigas para os espaços da vida quotidiana, um facto que deve ser saudado. Os residentes preenchem agora os seus quarteirões ao ouvirem o som das buzinas e apitos, enxames de veículos privados que perseguem e interrompem os agentes do ICE pelas avenidas fora, enquanto os vizinhos se mobilizam em torno das escolas, dos locais de trabalho e dos vendedores ambulantes. Os conselhos de defesa comunitária proliferam por Chicago, bem como noutras partes do país, com ativistas a estabelecerem núcleos de defesa em parques de estacionamento de lojas de materiais de construção e outros espaços frequentados por trabalhadores informais. De acordo com um guia prático recente, estes centros servem como espaços de encontro que vão além das afinidades da subcultura política ou da vida profissional, “oferecendo às pessoas indignadas relações locais que dão sentido à sua raiva”.27
À medida que o nexo entre a vida quotidiana e a reprodução social se torna cada vez mais politizado, a inteligência logística geralmente reservada para pilhagens e roubos em lojas começa a generalizar-se, a des-especializar-se e a tornar-se acessível a qualquer pessoa disposta a ligar-se a um grupo de pessoas e a começar a patrulhar. As práticas de vigilância colectiva, de baixo para cima, combinadas com um conjunto concreto de tarefas — prevenir as detenções, garantir uma passagem segura, assediar e expulsar pessoas hostis — estão lentamente a conseguir o que duas décadas de movimentos sociais falharam consistentemente em fazer: reintroduzir a participação colectiva no espaço metropolitano sobre uma base partisan e não económica.
As estratégias políticas são tão coerentes quanto as verdades em que radicam. Este reconhecimento levou os participantes, na revolta de Hong Kong de 2019, a priorizar a verificação de informações e factos. Estas práticas encontraram uma nova expressão nas lutas atuais contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos), que combinam a partilha de conhecimento infraestrutural com um êthos coletivo de presença na situação. Em cidades de todos os Estados Unidos, uma nova forma de empirismo político vasculha o quotidiano em busca de sinais do inimigo. Para intervir e prevenir os raptos, as redes de resposta rápida dependem de informações de vigilância obtidas através de ativistas que patrulham as zonas de carro ou a pé, ou ainda através de relatos publicados nas redes sociais. Esta informação é depois filtrada através de grandes fluxos de dados, no Signal, onde comparam descrições de veículos e matrículas, extraem números de chassis e trocam detalhes de localização em tempo real. Embora a utilização do protocolo SALUTE28 garanta que a informação é completa e acionável, há mais em jogo nestas práticas do que simplesmente a circulação de informação factual. Paralelamente à produção desta inteligência logística, forja-se uma nova sensibilidade política. A experiência individual atomizada da cidade dá lugar a um poder de atenção colectiva, expresso tanto através de um contínuo rastreio e perfilagem do inimigo como por uma sensibilidade aos ritmos, fluxos e relações qualitativas que povoam os lugares que habitamos. Como observa o mesmo guia prático, os centros de defesa “terão sucesso ou fracassarão, dependendo de se estiver atento às necessidades da área circundante”.29 Através desta aprendizagem-pelos-sinais, a luta contra o ICE está a contribuir para forjar um mundo em comum.
A ameaça que essa politização logisticamente orientada da vida quotidiana representa para a legitimidade das forças governantes é considerável. Sem dúvida, é por esta razão que a administração Trump tentou antecipar a resistência à sua própria ofensiva, conferindo-lhe uma identidade e uma narrativa pré-fabricadas. Em vez de reconhecerem a luta pelo que ela é, ou seja, uma circulação mimética de práticas difusas de subversão acessíveis a todos, independentemente das ideologias políticas ou das identidades sociais, as forças governativas projectam o mito de uma organização hierárquica (“Antifa”) financiada pelas elites liberais e organizada militarmente em “células”, que recebem ordens das autoridades centralizadas. O objectivo desta narrativa caricata e manifestamente falsa não é convencer ninguém da sua verdade literal (que não existe), mas ocultar as evidências sensíveis que se tornam cada vez mais contundentes: a dicotomia cidadão/não cidadão é uma ferramenta intolerável de um violento apartheid.
Que outras potencialidades pode esta nova onda de contestação albergar, ainda invisíveis para os seus próprios participantes? O que poderia uma rede difusa de conselhos de bairro, impulsionada por uma inteligência logística colectiva e uma elevada capacidade de intervenção e disrupção, realizar se fosse alargada? Para prevenir as detenções e proteger os residentes de forma eficaz, poderiam ser necessárias formas mais ambiciosas de bloqueios logísticos. O que seria necessário para começar a organizar ações coordenadas em cidades inteiras ou estabelecer bloqueios de triagem para garantir o controlo comunitário sobre zonas ou bairros? Que outras ambições poderiam ser alcançadas com estas técnicas de poder popular, caso o ICE se retire destas cidades?
IX. O fim da mediação poderá significar o fim da esquerda. Uma nova resistência revolucionária clandestina poderá surgir no seu lugar.
À medida que as forças em disputa concorrem para moldar a direção que o salto tomará para além da democracia liberal, as mediações continuarão a dissolver-se. Como principal vetor do “soft power”, o papel da esquerda na contenção da energia rebelde, através da promessa de reconhecimento e reforma estatal, pode deixar de funcionar. Enquanto a direita continua o seu ataque frontal às bases da cultura de esquerda, despedindo professores e criminalizando activistas e estudantes, ao mesmo tempo que corta o financiamento às ONG de direitos LGBTQ+ e aos migrantes, surge uma oportunidade para reinventar a clandestinidade política. Neste sentido, o caso do Sudão pode ser elucidativo. Como escreve Prasad:
Após uma revolta em 2013, proliferou um número crescente de comités de resistência que se propuseram a preparar o próximo ciclo de lutas. Concretamente, isto significava: manter centros sociais de bairro; construir a infraestrutura e armazenar materiais que consideravam necessários; desenvolver redes de camaradas e simpatizantes a nível concelhio e nacional; testar a capacidade destas redes através de campanhas coordenadas. Quando a revolução ocorreu de facto, no final de 2018, estes grupos conseguiram atuar como vetores de intensificação. Os comités de resistência também conseguiram sustentar a revolução na sua fase seguinte, após a demissão forçada do Presidente Al-Bashir.30
As tarefas concretas que uma clandestinidade pós-esquerda deverá empreender, terão ainda de ser clarificadas. Se a reacção pública a Luigi Mangione provou alguma coisa, é que não tem de traçar as suas coordenadas políticas na clássica guerra cultural entre a esquerda e a direita. É possível gerar um amplo movimento, combativo e ousado, capaz de explorar as lacunas da história recente, que, resgatando as suas ideias com tacto e perseguindo implacavelmente as suas conclusões, possa ressoar muito para além dos limites dos silos culturais do meio ultra-esquerdista, gozando de ampla aceitação em tempos de profunda incerteza.
Há mais de um século, Kropotkin propôs a seguinte correcção:
“Ainda assim”, alertam-nos frequentemente os nossos amigos, “cuidado para não irem longe demais! A humanidade não pode ser mudada num dia, por isso não tenham tanta pressa com os vossos planos de expropriação e anarquia, ou correm o risco de não alcançar nenhum resultado permanente.” Ora, o que tememos em relação à expropriação é exactamente o contrário. Tememos não ir suficientemente longe, de realizar expropriações a uma escala demasiado pequena para que sejam duradouras. Não queremos que o impulso revolucionário seja interrompido a meio caminho, esgotando-se em meias medidas, o que não satisfaria ninguém, e, embora produzisse uma enorme confusão na sociedade e interrompesse as suas actividades habituais, não teria força vital — apenas espalharia o descontentamento geral e prepararia inevitavelmente o caminho para o triunfo da reacção.31
Se e quando a maré virar a seu favor, se as esquadras de polícia estiverem novamente em chamas, se os políticos se voltarem a esconder em bunkers ou fugirem de helicóptero, os insurgentes não devem ser apanhados de surpresa. Não devem permitir que a comuna seja substituída pelo parlamento virtual dos servidores do Discord, mas devem aproveitar a oportunidade para promover experiências generalizadas e presenciais de partilha comunista para atrair o maior número possível de participantes.
Embora nada do que se possa imaginar atualmente seja adequado, a história guarda caminhos que ainda nos podem surpreender.
Adrian Wohlleben
Artigo original: https://illwill.com/revolts-without-revolution
Tradução da autoria de mais um grupo de leitura
As the meme of the One Piece flag circulates, it takes on local accoutrements. In Madagascar, for example, the straw hat is replaced by the satroka bucket hat traditionally worn by the Betsileo ethnic group. Still, it is significant that the national identity rides like an accessory atop the contagious symbol or sigil, and not the reverse. See Monica Mark, ‘‘Gen Z’ protesters in Madagascar call for general strike,” Financial Times, October 9, 2025 (online).
Maurizio Lazzarato, “The United States and ‘Fascistic Capitalism,’” translated by Eric Aldieri, Ill Will, October 7, 2025 (online).
Interview cited in Vasudha Mukherjee, “Trump turns ally investments into $10 trillion US ‘sovereign wealth fund,’” Business Standard, Aug 14, 2025 (online).
That the era of revolts arrived on the scene first, and was only later complemented by a fascizing effort to reimpose a US-centric order domestically and internationally, should not confuse us. The Invisible Committee’s balance sheet of the 2008-2013 cycle concluded with these words: “Nothing guarantees that the fascist option won’t be preferred to revolution.” The Invisible Committee, To Our Friends, translated by Robert Hurley, Semiotexte, 2014 (online here).
Nueva Icaria, “New Fascisms and the Reconfiguration of the Global Counterrevolution, Ill Will, August 11, 2025 (online).
Lazzarato, “‘Fascistic Capitalism.’”
Phil Neel distinguishes between struggles over the economic/ecological “terms of subsistence” and those over the authoritarian “imposition of these terms” (“Theory of the Party,” Ill Will, September 6, 2025; online). The global trend of late has been for mass, nonviolent social movements demanding reformed terms of subsistence to be catapulted into militancy when the forces of order overreact and open fire, thereby shifting the frame of the struggle from the first category to the second, from austerity to authority. The United States is an exception to this pattern: while the austerity measures supply backdrop pressures, in recent decades struggles over economic issues almost never escalate into mass combative unrest, which is only ever catalyzed by authoritarian means of enforcement. While revolt is unlikely to ever break out here over food stamp cuts, housing precarity, or denial of healthcare per se, activist networks forged by means of subsistence struggles do, nevertheless, occasionally contribute to deepening anti-authoritarian mass unrest, as occurred when the Los Angeles tenants’ union infrastructure was leveraged to establish anti-ICE defense hubs in the wake of the June 2025 riots.
Prasad, “Paper Planes.”
In this case, the shortfall of the imagination is a function of practical experiments that were not undertaken when they should have been. Thesis VII explores the inverse scenario, in which experiments were undertaken whose potency went overlooked.
Günther Anders, “Theses for the Atomic Age,” The Massachusetts Review, Vol. 3, No. 3 (Spring, 1962), 496.
For example, to refer to nuclear bombs as “weapons” and debate their tactical usage is to liken them to a tool, a means to some end; yet the usage of such bombs threatens to destroy the very world in which any and all such “ends” could be achieved. Their usage therefore cancels out any means-ends relation, making all tactical considerations impertinent. Yet this instrumental attitude remains the only way in which the imagination is able to think about them, in spite of its being a category error. See Gunther Anders, “Commandments in the Atomic Age,” in Burning Conscience, Monthly Review Press, 1962, 15-17.
Gilbert Simondon maintained that the “artificiality” of our relation to technical objects could be corrected only provided that we learn to conceive their evolution genetically, i.e., by decoupling it from the human purposes projected over them and instead grasping the development of their elements, ensembles, and associated milieus on its own terms. In an analogous fashion, when we study the evolution, mutation, and circulation of practical impulses and gestures across diverse sequences of struggle, it can help to methodologically suspend reference to the ends that participants in these struggles set for themselves and try to consider their evolution from one cycle to the next on its own terms. Some have expressed concern that this focus on the circulation and evolution of practices risks succumbing to what Kiersten Solt calls the “nihilism of technique.” In fact, it seems to me that pro-revolutionaries still do not think technically enough. Too many continue to reify an abstract and ahistorical concept of political action in which methods of struggle flowed immediately from the ends pursued or could simply be adopted voluntaristically by pure fiat. In practice, actuality precedes possibility: all struggles base their experience of what is politically possible on a reservoir of impulses previously in circulation, innovating within the limits set therein. It is this extant menu or repertoire — what we could call the tactical phylum — that sets out the boundaries of what is imaginable. And, far from racing ahead of it, our imagination often falls short of it. Consequently, instead of projecting ethical and political values ahead of reality and treating practice as merely a means to realize them, our analysis of practice can be used to push open our imagination, thereby rendering actuality possible again. This requires tracing the evolution of practical impulses across sequences of struggle in search of rifts, breakthroughs, and moments where limits were overcome.
By adopting the “Jolly Roger” as its global banner, 2025’s wave of uprisings converted the term “Gen Z” from a banal demographic designation into the symbol of a shared dispossession. Through its viral circulation from Indonesia and Nepal to Madagascar, Morocco, and Peru, the “Gen Z” pirate flag today attests to a familiar tension between the state and capital: with all the good local jobs hoarded by nepo babies, you need to travel abroad to make money; yet as the neoliberal order implodes, states are closing their borders. The result is a contradictory experience: workers are uprooted yet hemmed-in, with their only remaining access to the globe being online. The virtual community of pirate freedom is precisely the negative reflection of this landlocked economic condition. Of course, this condition is by no means limited to young people. The emphasis on “youth” appears to have more to do with a paradoxically negative virtue: to not have dirty hands. To be young means to be not yet in power, not yet running a racket, not yet implicated in networks of local and global power-sharing, not yet corrupt. It is this negativity — and not the positive predicate of one’s age — that has allowed a fighting force to coalesce around the marker “Gen Z.”
For an opposed reading that affirms the Yellow Vests’ usage of myth, see “Epistemology of the Heart,” in Liaisons Vol. 2: Horizons, PM Press, 2022 (online). As the authors themselves concede, however: “The problem is that while the fulfillment of myth contributes to the strength of the struggle, the tradition of the defeated must stay defeated in order to remain a tradition” (375). Here as always, the affirmation of myth proves to be inseparable from a cult of exemplary death, a religio mortis. Communism, in my view, must be a wager on earthly life, not eternity.
Adrian Wohllbeben and Paul Torino, “Memes with Force. Lessons from the Yellow Vests,” Mute, February 26, 2019
Adrian Wohlleben, “Memes without End,” Ill Will, May 17, 2021 (online). Reprinted in The George Floyd Uprising, ed. Vortex Collective, PM Press, 2023, 224-47.
“Référendum d’initiative Citoyenne” (RIC) refers to a proposed “constitutional amendment in France to permit consultation of the citizenry by referendum concerning the proposition or abrogation of laws, the revocation of politicians’ mandates, and constitutional amendment.” Wikipedia (online).
Jérôme Baschet and ACTA, “History Is No Longer on Our Side: An Interview with Jérôme Baschet,” Mute, January 23, 2020 (online).
This argument is explored further in Wohlleben, “Memes without End.”
The lesson to be drawn from sequences such as Kazakhstan in 2022, or Nepal this summer, is not that the halls of power should be ignored or left in peace, but that there is nothing to be done with them except to dispassionately raze them to the ground. From this vantage point, even the pool party in Sri Lanka lasted a little too long, and detracted from festivities that ought to have happened in the streets, the neighborhoods, and service stations throughout the country. While Nepalese protesters reduced physical symbols of bourgeois power to ash, they have not yet built bases of independent popular power in proximity to inhabited zones, instead retreating to virtual forums on Discord channels where they plotted to have their chosen politicians given positions of power. Despite the ferocity of their assault, the parliamentarian concept of politics emerged unscathed.
Lake Effect Collective, “Defend our Neighbors, Defend Ourselves! Community Self-Defense from Los Angeles to Chicago,” 4 (online). Although the text wavers between a “proactive” posture of autonomous intervention (4) and an ally politics limited to “support and facilitation” of what so-called “locals” do (positioning the authors as extraterrestrials) (5), it offers a strong practical toolkit for individuals and collectives looking to get involved in the present moment.
SALUTE is a mnemonic device that stands for: size/strength (S), actions/activity (A), location & direction (L), uniform/clothes (U), time and date of observation (T), equipment/weapons (E). This framework is used to ensure that detailed and complete information is provided when reporting an observation.
Lake Effect Collective, “Community Self-Defense,” 9.
Prasad, “Paper Planes.” With the difference that, whereas Sudan’s neo-councilist movement was eventually defeated by inability to defend itself, an American uprising will instead need to exert its full inventiveness simply to forestall the shooting war that lingers beneath the surface, in order that experiments in collective autonomy can flourish and fortify themselves in the meantime.
Peter Kropotkin, The Conquest of Bread and Other Writings, Cambridge University Press, 48.

